Parcerias entre médicos e farmácias de manipulação estimulam prescrição de substâncias prejudiciais à saúde
Você ficaria tranquilo sabendo que seu médico recebe 30% de percentagem dos produtos manipulados que prescreve? Entre as muitas picaretagens na Medicina, essa talvez seja a mais antiga: a troca de favores entre médicos e farmácias de manipulação ou laboratórios de exames. O resultado já é evidente, principalmente nos consultórios de quem realmente se preocupa com o paciente: uma epidemia de uso desnecessário de hormônios e outras substâncias, muitas vezes prejudiciais à saúde.
A cena é conhecida. O paciente sai com uma receita repleta de prescrições e a indicação de uma farmácia ou laboratório “de crédito do médico”, sem imaginar os interesses por trás. É mais um esquema que subestima quem procura cuidados e prioriza o lucro do médico com essas parcerias. Não por possibilidade, o uso indiscriminado de hormônios e do chamado chip da venustidade – hoje proibido pela Anvisa por complicações à saúde – virou febre.
Crítico ferrenho das picaretagens na Medicina, o hepatologista Raymundo Paraná aponta certa promiscuidade nessas relações e labareda atenção justamente para a receita de fórmulas com substâncias fúteis e com comprovação de risco a preços exorbitantes. “As farmácias fazem os produtos, cobram custoso e denúncias apontam que secção dessas contas retornam ao prescritor. Isso é uma depravação direta e fere o nosso Código de Moral. Semelhante situação pode ser definida em relação a serviços de imagem. Se o médico recebe por indicá-lo, ele está cometendo um conflito de interesse, que compromete a transparência de sua atuação”, analisa o profissional.
A prática está tão alastrada que, há dois meses, o Juízo Federalista de Medicina (CFM) publicou uma solução exigindo que médicos declarem qualquer vínculo com a indústria da saúde no CRM-Virtual. A regra entra em vigor em fevereiro de 2025. Enquanto isso, destaca Paraná, a relação entre médicos, fornecedores, laboratórios de vistoria e farmácias de manipulação é mediada unicamente pela moral de cada um. E, no final das contas, quem paga por ela é o paciente, seja financeiramente ou com a própria saúde
